Todo glamour será recompensado.

Ordem e prosecco

Monday, November 21, 2011

Festival de Cinema de Paraty

Para falar a verdade, estava muito envolvida com o filme da minha vida. Película Internacional. Mexicana, mais precisamente. Mas mesmo assim consegui ver uns 5 filmes.
O melhor de todos não era um filme. Era muito mais. Era de chorar. Era de se emocionar. Era de dar dor no coração de pena. Isto não é um filme, de Jafar Panahi, realmente não é um filme. É uma declaração de amor ao cinema.
Depois revi o Aprendiz de Alfaiate. Lindo. Do lindo Louis Garrel.
Um Chines "Férias de Inverno" que chamou a atenção porque apesar de ser cinza, sujo e quase sem diálogo como todos os outros chinas, ele também tinha humor.
Só pra registrar o diálogo entre um adolescente que quer voltar com a sua namorada.
- Porque você terminou comigo?
- Porque nosso amor é muito jovem e não quero que isso atrapalhe meus estudos.
- Desde que eu te conheço você sempre foi a última da classe...Você é uma tonta, uma idiota. Niguém além de mim iria querer ficar com você. Então acho melhor você se contentar em ficar comigo.
Neste mesmo dia desistimos do filme mexicano e resolvemos partir para uma cerveja com telão ao ar livre com vista para o cais. Era o primeiro festival marginal de cinema de Paraty. E a inauguração do Camoka no cais. O cenário já era um filme. Os filmes (documentários, curtas, performances) foram demais. E o meu lado boitatá ficou todo orgulhoso de morar em Paraty.
Dia seguinte assisti um francês: Adeus, primeiro amor. Erro. O filme tinha muito a ver com a minha vida. Apesar de eu não estar no meu primeiro amor. Ou melhor, sempre que eu me apaixono vivo como se fosse o primeiro amor. Realidade e ficção se confundiram tanto que acabei discutindo o filme e consequentemente a minha vida, com o ator do filme no Dinho's. Só não me pergunte o que eu disse. Não lembro. Que bom que minha vida é realmente que nem um filme. Depois que passa eu não lembro de nada. E viva o Brilho Eterno.
Vi também um sul coreano que eu sai no meio por tédio e amor.
E um argentino que para mim não fez muito jus à sua nacionalidade: Entre portas e janelas.

E assim termina o calendário de eventos culturais 2011 de Paraty. São Paulo pra que?

Leyla

Andando na praça minha visão era a seguinte: uma senhora ereta vestindo calça vermelha, blusa amarela, casaco roxo, chapél cor-de-rosa. Não aguentei, tirei uma foto. Na volta seguinte ela me interpela falando coisas que eu não conseguia entender porque estava de fone. Não aguentei, tirei o fone. E daquele visual multicolorido surge a pergunta: escuta mocinha, você sabe me dizer quem aqui dessa praça fuma maconha? Olhei ao redor, olhei ao redor, olhei ao redor. Se eu apontasse um maconheiro ali seria profundamente injusta com os outros habitantes da praça. Enquanto eu gaguejava para responder ela mesma continuou: eu sei! Sa..sabe? Sim. Descobri tudo. Eles fumam de um jeito diferente. Não é como um cigarro. Eles pegam o baseado com a ponta do dedão e do indicador. É mesmo? -improvisei meu melhor espanto. E tem outra! Eles fumam atééé o final. Até queimar os dedos.
Sem claquete, me perguntou porque eu estava andando, se eu não era gorda. E disse que o segredo que seu pai tinha lhe contado era que a saúde estava nos calcanhares. Andar sempre. Andar e aprender línguas. Minha filha fala cinco línguas. Meu neto mora em Singapura. Meu ex-motorista trabalha nessa casa aqui e diz que a filha da dona engordou tanto que não consegue sair da cama. Sua avó morava aqui? Agora mora o pessoal do Itaú. Eu sou mineira, mas meu nome é árabe. Leyla com Y. Moro naquele condomínio. No trinta e dois. Aparece lá pra gente tomar um chá.
De cogumelo, só pode ser.

Monday, October 31, 2011

Só.

Baseado em fatos reais. Ou não.


De novo aquela cidade era muito pequena para nós dois. Só que esse era um novo dois. Um outro. Que apareceu, que me encantou com um olhar, que sumiu na fumaça.
E o encanto de um olhar dura alguns dias. Depois vai se diluindo nos olhares de outros. Em frases mais recentes. No ao vivo e à cores.
E quando ele, o olhar, já era quase só uma lembrança, a lei da cidade pequena entrou em ação. Foi tudo muito rápido, muito romântico. Muito perfeito. Ele de moto com o motor desligado imediatamente pra falar comigo, eu que parei gaga a bicicleta. Um fim de tarde com uma garrafa de vinho, quatrocentos e setenta e cinco olhares e pés juntos embaixo da mesa. Um convite raro (quase uma anomalia) para jantar. Um sorriso que não queria sair do meu rosto. Uma roupa nem tão chique, nem tão ousada, nem tão simples. Nada que valesse um julgamento. Roupa neutra. Um beijo de perder o caminho no táxi.
Entrar naquele restaurante foi muito perigoso. Não querendo sonhar eu estava completamente babando. Não querendo acreditar tudo era perfeito. E ele mesmo disse que o dia tinha sido perfeito. Que adoraria dias iguais, idênticos à esse. Para o resto da vida. Disse pedindo um vinho da bourgogne e explicando porque ele gostava do vinho. Disse coisas a mais do que deveria. Coisas que exageraram minhas expectativas. Coisas que eram mais gostosas do que o ravioli com frois gras e molho trufado. Isso não poderia estar acontecendo comigo. Mas estava e eu achava que merecia. E que a gente tem mania de ter medo da felicidade e todas essas coisas que passam na nossa cabeça que não tem filtro para os clichês. O papo continuou. E só o fato do papo continuar já era um sinal de continuação na minha cabeça. Nenhum silêncio constrangedor. Muitas risadas verdadeiras e não por simpatia. Uma intimidade amedrontadoramente nada forçada. Lembrava de uma amiga ecoando numa orelha: acredita, vai dar certo. Pára de não acreditar. E outra dizendo ha poucos meses em Paris: os gringos são diferentes. Gostam da mulher como um todo, cabeça e corpo. Tratam a gente de outra maneira. Com os dois ouvidos cheios dessas frases, a boca cheia de vinho, os olhos lotados de tantos olhos, recebi um convite dele para que ele mesmo fosse dormir na minha casa. Uma donzela não deve aceitar um convite desses assim. Mas como eu deixei de ser donzela faz tempo a noite foi sensacional. Quero dormir aqui hoje, amanhã, depois de amanhã, ele me disse naquela noite. Quero dormir aqui hoje, amanhã e depois de amanhã, ele me disse no dia seguinte. E assim foi embora levando sua camisa amassada, seu sotaque. Mas deixando todo o resto em casa. O cheiro principalmente. O maldito mas incrivelmente perfumado cheiro gringo. Gostaria imensamente de ter tomado champanhe no café-da-manhã. Gostaria muito de dar um berro. Fiquei catatônica. Parada com borboletas no estômago tentando ler sobre a situação da primavera árabe. Mas eram muitas asas batendo. Vou trabalhar um pouco e volto logo para cá, pra te ver- ele disse. Fui andar de bicicleta. Achando que eu era alguém especial. Achando que todo mundo olhava para mim com inveja. Me achando.
Fui visitar umas amigas. Fui contar os fatos. À essa altura eu já me encontrava serena. Pele boa, sorridente. Rosto de quem se encontrou na vida. Rosto de quem encontrou o amor da sua vida. O telefone não tocava. Mas quem se importava com isso. Era tudo verdade e eu sabia. O telefone, coisa abstrata, não significava nada perto dessa coisa tão concreta que eu tinha construido na minha cabeça. Faz o que? Trabalho o menos possível. Adoro viajar pelo mundo. Aprender línguas. Hein? Brigada, quero um café sim, voltava eu para a sala com as duas.
Voltei para casa. Meu castelinho tão concreto já dava sinais de "arenar" um pouco. Mas nada que uma saída não resolvesse. Quatrocentas e setenta e duas possibilidades de porques de um não aparecimento depois a ficha de que ele era apenas mais um homem querendo comer uma mulher caiu. O que, misturado com o alcool, causou uma combustão instantânea e eu explodi em lágrimas. Aí a gente chora por tudo. Chora porque foi otária. Chora porque já estava se imaginando casada. Chora por descobrir que na verdade, por mais que se fale o contrário a gente queria mesmo é estar casada. Chora por cada frase filha da puta que o cara pronunciou e você, com aquele olhar idiota acreditou. Assim, chorando de se esbugalhar, me achando a última das últimas das mulheres, voltei para casa. Um cachorro se aproximou. Foi andando ao meu lado. Sem dizer nada, como lhe seria pertinente. No meu sofrimento eu nem dei muita bola para ele. Mas, aos poucos, fui deixando ele me consolar. Acabei deixando o cão (Consolo, o apelidei) subir no meu apartamento. Dei comida para ele. Pateticamente eu alimentava soluçando um cachorro de rua no meu terraço. Nem me lembro bem como fui dormir. Dormi de tanto chorar. Acordei naqueles cinco primeiros segundos em que você ainda não está na realidade. E nos segundos restantes a maquininha já tinha processado o dia anterior e já tinha encontrado o resultado: depressão de ficar embaixo do edredon. Que voou pelos ares quando eu lembrei do cachorro. Que ele poderia ter comido meu sofá. Que ele poderia ter mijado na cortina. Que na hora que eu abrisse a porta do terraço ele ia avançar em mim. Mas não. Ele estava tranquila e pacificamente dormindo. Acordou e me olhou com serenidade. Sem ressaca, sem os olhos inchados, com alguma ternura. Alimentei o canino mais uma vez. Dei-lhe água. E já que já tinha levantado resolvi dar uma volta de bicicleta. Assim que eu coloquei o cachorro para fora, ele foi até o jardim e fez seu xixi. Achei essa atitude de um respeito emocionante. Comecei então a fantasiar que tudo aquilo aconteceu para que eu conhecesse o cachorro da minha vida.
Enquanto eu dava as primeiras pedaladas o Consolo me acompanhou, fiel. O que me arrancou um meio sorriso. Depois parou de me seguir, ficou parado, olhando em outra direção. Antes que ele sumisse para sempre, cheguei a pensar em chamá-lo. Mas só pensei. Sem forças.

Saturday, October 29, 2011

Ja passou?

Já passou de não saberes quem és? De estares vivendo um sonho, um pesadelo. Pisando na névoa. Você é capaz de não comer, de não beber. De ter sono toda hora, de repetir as mesmas frases à exaustão. E ainda assim não saber o que sente. O que sentirá? É estranho estar sozinha tanto tempo. Te dá a sensação de que estar com alguém é algo errado, proibido.

Tuesday, October 25, 2011

Lendo um livro em italiano...

Best Seller, nada demais.
Mas valeu por duas coisas sensacionais.

• Título em italiano passional: Te aspetterò per sempre. (ma non metterci troppo) / Te esperarei para sempre. (mas não demore muito)
Título original: London is the best city in America.

Enfim, agora posso imaginar a origem da tradução dos nomes dos filmes para o português. O primeiro tradutor nasceu no Bixiga.


• Um pensamento que eu achei muito verdade (numa traducão livre):

" Durante o meu primeiro ano de colegial, Matt ficou entre os finalistas de um estágio num famoso estúdio de arquitetura de Chicago. Se ele conseguisse a vaga, ele iria partir. A idéia de que iríamos ficar longe um do outro não o estava impedindo, nem por um momento, de aceitar a vaga. Cheguei a pensar em fazer a universidade em Nova York e não na Califórnia, como programado. Não é que eu não quisesse que ele fosse para Chicago. Mas para mim era uma decisão fácil ficar perto, e fazer-lo feliz. E não conseguia entender porque para ele nossa separação não fosse uma decisão dificílima de se tomar. Muito tempo se passou antes que eu entendesse que o meu medo da distância diminuia o seu. É sempre assim: o excesso de afeto de um dá a liberdade ao outro. "

É vero.

Mentira

Outro dia eu vi que o Cristo Redentor fez 80 anos. Mentira. Muita mentira. Ele sempre esteve lá. Sempre. Quando o primeiro homem pisou na areia da praia ele ja estava la. Extensão da montanha, de guarda. Antes das favelas, antes da calçada de Copacabana, antes de Machado de Assis. Ele nasceu espontaneamente no morro do Corcovado. Foi crescendo com as mãos em prece e quando chegou o primeiro batuque, do primeiro habitante, ele abriu os braços. E lá ficou. Nem adianta tentar me enganar.

Saturday, October 22, 2011

O que tiver que ser...

Tem que ser.
Precisa ser.
Vai ser.
Não pode ser outra coisa.
Não está escrito.
Mas eu posso escrever tudo depois.

Monday, October 17, 2011

Voltando ao hoje 2

Esquecendo as retrospectivas, precisava registrar que esse foi um fim-de-semana de festa. Eu, Toty, Suppi, Carois. Quanta amizade. Quanta risada. Quanta coisa boa. Não tenho muita saudade da cidade grande Mas da amizade grande, ai. Como tenho!

Foi bom brindar a vida e a nova vida.

Santa Clara Clareou

E num domingo de sol, clareou, clareou, geral.
Ela nasceu. A Clara, bem morena.
Mais uma para a família.
A filha do casal bonito.
A irmã do menino lindo.
É muita beleza junta.
É até sacanagem.


Ps: eu sei que se esse blog fosse jornal ele ja estaria enrolado num peixe. A Clara nasceu faz um mês, dia 18 de setembro. Mas eu tinha que registrar.

The book is in the bag.

Nada de livros em vagões de metrô. Ninguém mais lê na Europa. Todos usam esse tempo para preparar o cigarro artesanal. Colocar o fumo e a piteira na seda e enrolar. E depois ficar com o cigarro apagado na boca esperando a estação. Comentei sobre essa febre com a Celine. Ela disse que não era febre. Era a crise. Cigarros enrolados saem muito, muito mais barato. E os negos ainda estão economizando nos livros que não estão comprando.

As bicicletas de Belleville

Ah! Paris. Tudo parece chique em Paris. Que tal, depois de visitar o bairro africano da 18eme, alugar uma bicicleta e almoçar num Tailandes em Belleville. Trés glamourouse. Fomos eu, Wolf e os meus sonhos. Enquanto eu pedalava "as biciclatas de Belleville" não saiam da minha cabeça. Imaginava magros franceses, aqueles de desenho. Imaginava jardins com flores gigantes. Um cheiro de lavanda no ar. Enfim, imaginava uma Belleville. Que iria nos recepcionar ao som de um acordeon. Fomos chegando perto. As plaquinhas diziam Belleville. Mas eu jurava que elas estavam mentindo. Franceses eu não encontrei. Flores tão pouco. As placas sumiram. Ou mudaram de língua e agora eram escritas em chinês. O cheiro de lavanda do meu sonho foi sutilmente sendo substituído pelo cheiro de um fim de feira. Belleville tirou a máscara de borracha e nela estava escrito made in China. Não se escutava frances na rua. O tal do tailandes estava fechado e tivemos que entrar num restaurante chines mesmo. Que o chines da farmácia indicou. Mas desconfio que ele indicou só pra vender um digestivo depois. As bicicletas de Belleville deste filme eram puxadas por chinesinhos. Que sonho errado mon dieu! Era como se um lugar marvilhoso, um paraíso, se chamasse Cotovelo.

Esqueci de uma coisa...

Na Biennale, não perder o salão com quadros imensos. Pinturas por outro ângulo de quadros famosos. Genial. Não dava pra fotografar, fotografei a santa ceia do livro. Olha só:


Paris- Delhi - Bombay

O museu Pompidou é o meu queridinho. Acho aquele lugar incrível, o restaurante do último andar um paraíso e as exposições sensacionais. Na primeira vez que estive, comprei uns copinhos de cerâmica, imitando copinhos de plástico amassados. Achei aquilo sensacional. Acho ainda. Só que agora eles são vendidos em qualquer lojinha meia-boca de design por aqui.
Agora meu sonho era que com essa cortina da exposição Paris-Delhi- Bombay, acontecesse o mesmo. Me deu vontade de entrar nua na exposição. Aí os guardinhas reclamavam e eu puxava a cortina para me cobrir e saía correndo. Feliz, feliz.
Enfim, já que esse plano não deu certo posto aqui a foto do meu objeto de desejo. Se alguém se empolgar em produzir em série me avisa. Não vou cobrar nada mais que uma cópia para MOI. Merci.



Tuesday, October 11, 2011

Biennale de Venezia

Se não fossem as milhas, se não fosse o festival de cinema, se não fosse os dois anos e meio sem trabalhar, eu juro que pagaria uma passagem SP-Veneza só para ver a Biennale. Só o lugar (um deles, na verdade), já vale a pena. O Giardino é lindo. Um parque a beira-mar com os pavilhões a beira-mar e um bar a beira-mar que se chama Paradiso e não é por acaso. Eu só mudaria uma coisa em tudo aquilo: a palavra Pavilhão. Pavilhão me lembra algo de concreto e lona. Uma coisa bruta-montes sem charme, desengonçada e ogra. No Giardino, os "pavilhões" são casas incríveis, espalhadas pelo jardim, cada uma do seu jeito. Cada uma de um país. Como não consigo pensar num nome mais fofo para Pavilhão vai com ele mesmo.

• No pavilhão da Espanha, entro eu e meus óculos escuros. Começo a observar as obras de arte nas paredes, vou dando a volta no salão e paro em frente a um telão bem primário com um texto. Como seu gente curiosa que gosta de ler, parei em frente à ele e comecei a seguir o texto. Em italiano, ele dizia assim:

O bom de estar aqui é poder observar e escrever sobre as diferentes pessoas...
Duas meninas olham para a tela por algum tempo e vão para um outro salão sem comentar nada. Provavelmente elas não falam italiano. Uma ragazza de óculos escuros pára em frente à tela e começa a ler o que eu escrevo.

Eu dei um leve sorriso.

Ela dá um leve sorriso.

Eu olhei para os lados.

Ela olha para os lados me procurando.

Eu tirei uma foto.

Ela tira uma foto. Enquanto isso uma moça com uma imensa bolsa de palha entra no pavilhão.

Eu olhei para a moça com uma imensa bolsa de palha entrando no pavilhão. E continuei andando encantada com a simplicidade e a interatividade da obra. Saí sorrindo. Mas isso ele não podia escrever porque eu estava de costas.


• Outras coisas que eu achei que valeram a pena:
- O tanque-esteira em frente ao pavilhão dos EUA só para você falar que viu ao vivo porque os jornais já tinham estragado todo o ineditismo da obra.
- a sala de massinhas vermelhas, brancas e pretas. Onde você podia montar e colar o que quisesse com elas na parede.
- o caixa eletrônico/orgão de igreja que funcionava de verdade. Cada vez que uma pessoa tirava um dinheiro ele tocava.
- o pavilhão da alemanha. Eles reproduziram uma igreja numa instalação em homenagem ao diretor Christoph Schlingensief (ele foi convidado para fazer parte dessa bienal mas faleceu antes). "Uma Igreja do medo do estranho dentro de mim" aborda a sua tuta contra o cancer, a morte e a vida. Obviamente eu não sabia de nada disso quando visitei o pavilhão e nem encontrei nenhuma explicação. Achei a instalação incrível mesmo assim. Assim, quem leu aqui e for pode dar uma de entendido das artes e quiçá conquistar um artistaplasticozinho/a.
- Pavilhão da Inglaterra: os loucos reproduziram uma casa da Turquia (ou algo assim). Incrível.
- Pavilhão da Venezuela. Muito divertido o painel pop com ícones que vão de Frida Kahlo à Obama.
- Pavilhão do Japão. Delicia de projeções.
- Pavilhão da Korea. AMEI. Incrível o vídeo do soldado camuflado de flores. O pavilhão inteiro vale a pena.
- Lanchonete. A lanchonete do Giardino é uma obra de arte pop à parte. Não dá pra não ir. Não dá pra não gostar. Não dá pra não tirar umas fotos nos espelhos, bolas e geometrias coloridas. Não dá pra não pedir uma cerveja e sorrir o sorriso da Monalisa para o graçon. Tonta de tanta arte.

Enfim, daqui a dois anos tô de volta. Espero.

Monday, October 10, 2011

Voltando ao hoje

Depois eu continuo escrevendo do resto da viagem, do rio, e de tanta coisa.
Mas peguei uma carona no Hoje só pra dizer que o dia foi lindo. Que realmente eu sou feliz no meu terraço. No meu silencio (silencio esse que as vezes é difícil), nas minhas escritas. Preciso me lembrar de ficar calma. De escrever. O duro é que depois de escrever o dia inteiro, depois de ver um por do sol, de escutar passarinhos, galinhas (hoje teve galinhas) e agora sapos...Depois disso tudo eu olho pra essa lua cheia e me da vontade de uivar. Sinto, a lua me chama eu tenho que ir pra rua, como diria um cantor cabeludo.

De filme

Numa noite em que ele me chamou de Monica Bellucci, disse que eu falava bem o italiano, me deu um abraço perfumado, abraço de olhos azuis venezianos e me disse pra sonhar dourado. Nessa noite, minha bicicleta se transformou em gôndola e eu voltei pra casa escutando violinos. Verdade! Ta aí a lua que não me deixa mentir.

Filmes Venezianos

Não foram muitos esse ano, mas valeram a pena.

Killer Joe - William Friedkin
Com Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Tempe, Gina Gershon

Sensacional, totalmente tarantinesco. Cenas que vão ficar para a história desse gênero. O diretor foi a revelação simpatia do festival. Só fiquei triste porque queria ver os meus dois gatos e não vi. O Matthew não apareceu. Aquela brazuca muié dele deve ter proibido o cara de ir ao cinema sabendo que eu tava la. E o Emile (aquele do Into The Wilde) era tão pequeno, mais tão pequeno, que eu nem vi.
Enfim, um filme para assistir e pedir um frango frito depois, como disse o diretor no fim da sessão.

L'último Terrestre - Gian Alfonso Pacinotti
Com Gabriele Spinelli, Anna Bellato, Roberto Herlitzka, Teco Celio

Uma boa diversão. O melhor de assistir filme italiano na Sala Grande é ver as poltronas reservadas para a turma da pelicula se multiplicarem que nem gambás. Quando é filme chinês, tem la duas poltroninhas, uma para o diretor e outra para o produtor. Já quando é italiano, os negos são apresentados e se levantam para agradecer fazendo a ola de tanta gente. Enfim, um filme engraçado, que foi mais eficiente na propaganda do que nele mesmo.

People Mountain, People Sea - Shangjun Cai
Com uns chinas que ninguém vai conhecer mesmo e me deu preguiça de escrever.

Esse ganhou Leão de Prata. Não vi muitos filmes esse ano, mas acho que ele ganhou esse leão pelo final do filme. Nossa sessão foi bem conturbada. Esse era o filme surpresa. Você compra o ingresso e não sabe o que vai assistir. Mas as surpresas estavam apenas começando. O filme começou como todo o chinês. Cinza, parado, com perguntas que só são respondidas depois de 10 minutos. E respostas baixas que não se entende. Logo o perguntador tem que perguntar de novo, desta vez gritando. Aí começa uma discussão inintendível de gritos anasalados. Terminando com alguém pensativo numa cozinha de forno a lenha cheia de fumaça.
Enfim, quando o filme ja estava começando a embalar o sono de muita gente vejo uma porta se abrir do outro lado da sala. Vejo uma pessoa saindo. Depois outra, e outra e metade da sala. E eu comecei a chorar de pena do diretor chines com um sorriso simpático e um blaser de gola chinesa. Tudo bem que o filme não estava empolgando muito mas sair desse jeito era muita falta de respeito. Depois fiquei sabendo que não era uma debandada ocidental de um filme oriental parado. Era um princípio de incêndio. Chorei mais ainda. O filme kinder ovo veio com a surpresa estragadinha.
Depois de meia hora o filme voltou e a fumaça ficou só no forno à lenha da tela que esquentava o Ban Chá. Brincadeiras à parte, o final desse filme é mesmo sensacional e merece prata.


Pasta Nera - Alessandro Piva

Um documentário emocionante sobre uma história que eu não conhecia: entre 47 e 52, a Itália estava devastada por causa da guerra. Principalmente a região sul. Muitas famílias não tinham nem como alimentar os seus filhos. O norte então resolve ajudar recebendo centenas e centenas de crianças do sul para cuidar. As crianças chegavam de trem sem destino. Na ferroviaria eram "capturadas" por famílias que seriam as suas por dois ou tres anos. O documentário mostra depoimentos dessas crianças, dos pseudo-pais, dos pais verdadeiros. Lembranças, reencontros, carinhos e o cheiro inesquecível do pão com salami do norte.
O filme foi aplaudido de pé por muito tempo. Eu aplaudi e chorei. Chorei pelo filme e pelo diretor que era um gato.

O sotaque

Na última vez que eu fui pra Veneza, minhas aulas de italiano tinham apenas começado. Um amigo que viajava comigo e estava morando em Firenze se divertia com o sotaque das pessoas de lá. Dizia que pareciam caipiras falando italiano. Eu não conseguia perceber. Mas desta vez sim. E vou te contar que era muito engraçado. Muito caipira. E muito estranho. Venezianos para mim sempre usavam capas, máscaras e falavam arcaicamente, corretamente, finamente. Mas não. Descobri que eles são o Primo Cruzado da Italia. E, como diria o Suppion: na verdade o Brad Pitt não estava falando tão errado em Bastardos Inglórios. É que seu arrivederci tinha sotaque veneziano.

Veneza

Desta vez, ir para o Lido de Veneza foi como voltar para Paraty depois de um tempo. Minha casa. Aquele cheiro que eu já conheço. Aquelas ruas de balneário com boias e bugigangas penduradas em lojinhas que antes vendiam filmes e máquinas descartáveis e agora quem sabe o que. Eu já sabia onde alugar a bicicleta, onde comprar os ingressos para os filmes, onde tomar um prosecco por dois euros. Sabe aquela vontade de chegar em casa e colocar uma roupa mais fresca? Por um chinelo? Então, era só a vontade mesmo. Porque nada como se arrumar, inventar um cabelo, colocar um meio saltinho prata e sair pedalando num fim de tarde beira mar até o tapete vermelho pra ver os famosos e se sentir um deles. Depois tomar um spritz com os amigos, discutir os filmes do dia, tomar um prosecco, conhecer mais alguns câmeras amigos, dar risada e voltar pra casa com o salto sujo, o cabelo despencado e a lua estalando. Ah! Veneza.

Drinks do verão na Italia

Run Pera:
Um shot de suco de pera num copinho. Um shot de run (Havana Club, lógico) em outro copinho.
Um gole de cada.
Uma noite fantástica

Spritz:

Uma dose de Aperol, duas de espumante, um pouco de tônica de limão, uma rodela de laranja. Socorro! Que saudade. Felicidade líquida. O vermelho com gelo já deixa o drink mais safado. Pdir um spritz ja faz cócegas na língua.

Sgroppino:

Sorvete de limão, espumante e vodka. Bater no liquidificador e tomar de joelhos, agradecendo a vida que é boa demais.

Nada como...

Ver um nuovo dia na Ponte Vecchio.

Wednesday, October 05, 2011

Uma viagem moderna

Às vezes é muito difícil viajar com o seu amigo/irmão e conhecer alguém. Queria andar com camisetas: non siamo una coppia, single, lui é solo un fratello... A coisa já estava difícil. E quando andava, andava na contra-mão. Primeiro, depois da minha decepção pelos romanos (tirando o moço dos sinais na janelinha do avião) encontro um deus grego, ops, italiano, finalmente. No lugar mais improvável. Fenos rolavam em Casteluccio di Norcia enquanto um lindo, todo tatuado, belo sorriso, todos os dentes, vendia tartufos e simpatia numa das...3 lojas da cidade. Nunca amei tanto um homem. Fui buscar nos arquivos todas as minhas aulas de italiano e me esforçando muito, usando as mãos e os olhões, disse que estudava italiano. Ele deu um sorrisinho (inho mesmo, bem pequeno), apontou para o Suppion e disse: mas lui parla benne! parla perfecto! LUI? LUI? Lui que nunca teve uma aula de italiano. E assim foi: lui ganhou um isqueiro, lui ganhou um café, lui ganhou desconto nas compras, lui ganhou dois beijinhos de despedida (o que é normal, mas me ajudou a tirar um sarro). Luuuuiiii, uuuuuiiiii. Enfim, perdi pro Suppion.
Corta para Firenze. Suppion é convidado para uma partida de pebolim no nosso bar predileto. Na sua frente, uma das mulheres mais bonitas que eu já vi. Ao lado dela, um nerd. Seria ele inacreditavelmente o seu namorado? Ao lado de Suppion um altão maravilhoso. Estaria ele inacreditavelmente sozinho? A loira pegava no cano dos jogadores do Suppion e o impedia de jogar. Mas não de ter sonhos eróticos com ela. E com o cano. O nerd ria para mim. E eu ria para o grandão que dava tapinha nas costas do Suppion e abraços apertados depois de cada gol. Tempos depois a mulher linda beija o homem lindo. As coisas ficaram mais claras. Os sonhos mais escuros. Joguei uma partida como dupla da mulher linda. A mulher linda começa a me abraçar porque eu disse que minha família era de perto de Napoli. O homem lindo e o nerd começam a tomar whisky e sabe-se lá o que com o Suppion. A mulher linda me chama para dançar. Suppion estava feliz, com os olhinhos estalados. Eu estava feliz com os olhinhos pequenos. Na pista eles voltaram a ser olhões quando a menina começa a se esfregar em mim. O fato é que eles nos convidaram para ir para um outro lugar. Que lugar? Eu perguntei. Ah, logo ali...
Saímos do bar e na rua disse para o Suppi que eles queriam que a gente fosse para um bacanal. Bacanal? Oba. Foi a resposta animadora de Suppion. A menina bonita percebeu meu espanto e, passando a mão no me rosto e descendo para os meus peitos disse que eu não precisava ir se eu não quisesse. Eu não quis. O Suppion não acreditou. Queria que eu quebrasse essa pra ele.
Quebrei nada. Quebrei a cara em mais uma noite Firenziana.

Tuesday, October 04, 2011

Mais Firenze

Os pores do sol em Firenze são inacreditáveis. Dá para entender toda a inspiração renascentista. Tem cidades que são mágicas. Mas quando uma cidade tem um por do sol mágico ai ela é bruxa. Te enfeitiça pra sempre. Moraria em Firenze. Teria uma bicicleta, estudaria arte, sugaria os colágenos da comunidade universitária para continuar jovem, renascida e dividiria assim meus pores do sol:
Segunda: Ponte Vecchio para esquecer que é segunda. Lá se esquece tudo.
Terça: Duomo. Não é um por do sol. É um sumiço perto daquilo tudo.
Quarta: Do terraço do Palácio Vecchio, tomando champa e fingindo que eu sou a condessa Eleonora e que dali até onde a vista alcança é tudo meu.
Quinta: Piazza de la Cruce. Onde eu já estaria de banho tomado e já ficaria para o happy hour na rua dos bares mais legais.
Sexta: em Santo Spirito, na garupa de uma scooter.
Sabado e domingo é descanso. Viver de por do sol é ótimo, uma moleza, mas cansa.

O último grito da moda.

Lojas de souvenir na Italia são sempre assim: dependendo do lugar tem o coliseu e os pinocchios; o vaticano e os pinocchios, a torre de piza e os pinocchios, o vesúvio e os pinocchios. Enfim, Pinocchio é o cara por lá. E eu diria sem sombra de dúvidas que 90% dos frequentadores das lojas de souvenir e heavy users de brindes pinocchiais são os japas. Logo, não foi difícil chegar ao nosso personagem mais querido da viagem. Sentados num bar, tomando uma coca gelada, curando a ressaca da noite anterior num calor infernal, avistamos ele. Por um momento achei até que fosse alucinação. Bermuda, meias nas canelas, sapato lustrado, suspensórios, chapéu e...olhos puxados. Claro. O mix de sucesso. O hit do verão. Japinocchio! Jamais me esquecerei do Japinocchio. Morro de saudade do Japinocchio.

Firenze

Firenze.
Floresço.

Montepulciano

• A cidade dos melhores vinhos da Toscana. Pena que eu só fiquei sabendo disso depois que eu fui embora. Mas entendi porque eu gostei tanto do vinho da casa. Quem for pra lá, além de não perder os vinhos, tem que ficar no Il Riccio. Um antigo palácio que estava na família do dono há gerações. O palácio é de 1200, tem 6 quartos, café da manhã e o preço é bom. Enfim, Paloma recomenda.

Dois casais.

Enquanto a gente jantava, dois casais ingleses não paravam de rir. Uma risada deliciosa que me fez querer estar na mesa deles. Queria tirar uma foto deles. Queria servir mais vinho para eles. Na saída não aguentamos e tivemos que falar com eles. Dar os parabéns por tanta felicidade. Eles nos contaram (rindo muito, claro) que tinham se conhecido naquele dia. Que os dois casais estavam fazendo 25 anos de casamento. Que estavam comemorando com o mesmo vinho. Que os dois homens se chamavam Andrew. E que as duas mulheres eram a Camila Parker, pensei.


• Não perca também o panini extraterrestre do Marco. Não pelo panini (era bom: prosciuto, azeite trufado, pecorino), mas pelo Marco. Vale a pena escutar ele dizendo que seu sonho é cassar patos na Argentina. O nome do bar é Podernovo. Não faz o menor sentido. Mas enfim, a vida não faz sentido.

Meus melhores pontos turísticos

Os pontos turísticos que eu mais gosto, sempre, em qualquer viagem, são as pessoas. Em Spello, a cidade que é uma rampa, conheci um que valia a pena visitar. Depois de subir, subir e rezar por um teleférico chegamos no topo da cidade, num mosteiro. O jardim do mosteiro oferecia água para transeuntes de língua para fora como nós. Depois de me encharcar prometi até voto de silêncio para os monginhos de tanta satisfação, mas não consegui cumprir porque logo na saída, sentado no topo da cidade, estava Marcello. Um senhor que no meu entendimento estava sentado lá só para fazer um comentário aos que acabavam de se refrescar com a água: oggi fa caldo, era buona l'acqua fresca? E assim começamos uma conversa. E ele, ao saber que nós falávamos português soltou imediatamente um: eu sou um velho fudido. E depois de explicarmos que não éramos una cópia (um casal), ele começou a soltar aqueles galanteios italianos muito peculiares para mim. Enfim, em cinco minutos ri mais, aprendi mais e me senti mais toscana do que em toda a outra uma hora e meia que eu andei pela cidade. Por mim ficava a tarde inteira sentada na calçada, jogando conversa fora com o Marcello que se achava Mastroianni. Na Toscana é comum o Agroturismo, onde as pessoas ficam em pequenas fazendas, vinícolas, essas coisas. Eu vou lançar o Parloturismo. Visite as pessoas locais e parle muito com elas. Imperdível.

Monday, October 03, 2011

Casteluccio di Norcia

Imagine um bando de bolas de sorvete. Agora troque as bolas por triângulos. E em apenas um desses triângulos bem no topo, você tem uma cobertura. Lá é assim. Montanhas, montanhas, montanhas. Fenos rolando (literalmente!) e uma cobertura de casinhas numa das montanhas. Entre julho e agosto, o vale fica repletíssimo de flores. Faixas e faixas coloridas. Tão bonito, tão inacreditável que só ao vivo. Em foto fica cafona.

Ps: Não perder o prato típico Ravioli com recheio de ricota e molho de tartufo nero. É de passar no cabelo.

Fantasias

Adoro me fantasiar. No carnaval e fora dele também. Aliás, fora dele acho mais legal. A fantasia pode transformar o que era pra ser algo comum em especial. Eu tinha uma paquera secreta no trabalho. Paquera dessas de chat, platônico-moderna. E a gente brincava de personagens. E cada dia ele pedia pra eu vir de uma coisa: professora, secretária. E eu aparecia. Até de enfermeira eu fui. E só a gente sabia. E só a gente se divertia com isso. E nessa época eu nunca perdia a hora porque era demais ficar se arrumando. Enfim, o que era pra ser um saco, com um pouco de fantasia ficava mais interessante. E assim é em viagem. Em Cuba me vesti de anos 50 pra andar de carro antigo, no Egito fiz turbante na cabeça. E nessa viagem para a Toscana a fantasia era o chapéu. Andar de carro pelas estradas da Toscana de chapeeu, óculos escuro maior que a cara e escutar música italiana. Só faltou parar para um picnic com vinho de prosciuto. E todas aquelas fazendas lindas, aquelas entradas com pinheiros pontiagudos, aquelas parreiras, aqueles pores-do-sol, tudo aquilo nos fez esquecer que pagamos 5 euros por uns chapéus vagabundos made in china na entrada da piazza del popolo. Tem horas que a realidade é melhor.

Roma

• Quando fui pra Roma da primeira vez, fiquei chocada com os homens. Me lembro que assim que eu e as meninas saímos do avião demos de cara com um faxineiro deslumbrante, incrível, sensacional. E assim foram garçons, mendigos, transeuntes, mascarados. Desta vez, olhando pela janelinha do avião, encontrei o meu primeiro maravilhoso. Aquele cara que fica fazendo sinais para estacionar o avião. Queria muito que ele fizesse sinais obscenos para mim, tamanha era sua beleza. E naquele momento me perguntei porque eu nunca havia pensado em morar em Roma. Ali era o meu lugar. Sai do avião ainda deslumbrada com a beleza do mocinho e vi uma mulher muito bonita. Depois vi outra. E mais outra. E milhares delas. E juntando todas elas de perna de fora não dava meia celulite. Quis pegar o avião de volta dando tchau para o gatinho, vestida com uma burca. Gatinho aliás, que foi o único. As mulheres bonitas acabaram com eles. Comeram todos no café-da-manhã.

• Rápidas:
O Coliseu me deu muita saudade do Titus Pulos e da série Roma. E da pessoa que assistia a série Roma comigo.
A Fontana de Trevi eu não encontrei no meio de tanta gente.
No Vaticano tinha muita foto e pouca fé.
E assim terminaram nossos pontos turísticos. Deixamos os outros para os japoneses, que estavam e maioria e fugimos todas as noites para Trastevere em busca de Spritz, Run Peras e diversão local sem flashes. Como diria uma placa de um restaurante por lá: we are against war and tourist menus. Genio!

Na beira do Tevere, todo o verão, eles montam barracas, pequenas filiais dos bares e restaurantes da moda. Complexo que, carinhosamente, chamamos de Nossa Quermesse. Fomos todos os dias tomar umas por lá. O que me leva a crer que fidelidade não é sinal de sucesso. Saímos do jeito que entramos. Só um pouco mais ébrios.

Business Class

Nada como se despedir da vida de glamour (por enquanto, claro), viajando de business class. Com milhas, o que ninguém la dentro precisava saber. Você toma champa em todos os momentos em que seu olho está aberto e seu corpinho ainda não está numa completa horizontal. Pode ser caipira pedir champa toda hora. Só os pobres e os novos ricos fazem isso. Como agora sou pobre, faço com gosto. E quando for rica de novo, serei uma nova-rica, situação que me permitirá continuar degustando borbulhas durante toda a viagem. O bom é que a gente chega no destino, novinha em folha. Aí é só colocar um óculos escuro, pegar a mala quebrada e vagabunda e entrar no busão, com toda a classe, arrotando champanhe.

Anotações póstumas da última viagem à Europa com o rico dinheiro publicitário.

Andam por Paris:

• O verde bandeira. Verde, verde mesmo, sem vergonha de ser verde.
• Chapel à la Brigitte Bardot.
• Shorts, shortíssimos. Não só os jeans mas os coloridos também. Com blaser.
• Camisetas com estampas indígenas, maias, incas, astecas, boitatás em geral.
• O chamado punk burguês
• E as velibs. As fantásticas bikes de 1,70 Euros/dia estão por todos os lados.

Angeli, também tô em crise

Como pode? A coisa que eu mais gosto de fazer na vida é escrever. E não tenho conseguido escrever uma linha. É muito estranho. É como se eu fosse magérrima e pudesse comer à vontade, adorasse doces e na minha frente tivesse um bolo de chocolate suíço salpicado de ouro e eu não comesse nada. Só ficasse ali sentido o cheiro. Enfim, vai explicar a mente humana.
O fato é que viajei, voltei, minha sobrinha nasceu, meus pais vieram me visitar em Paraty, fui para o Rock in Rio, inauguração do Studio Rj, torrei no sol do Arpoador ao lado dos meus últimos tostões, todos torradinhos e crocantes. Estou sem dinheiro, sem inspiração, mas feliz da vida. Renovei o aluguel da casa em Paraty por mais 6 meses. Ainda posso vender bolo de Gabriela (aceito encomendas, é bom pra carai) nas esquinas, o mar é de graça, o cinema é de graça, os shows na praça são de graça, tenho uma amiga que fabrica shampoo, creme e sabonete, portanto serei uma pobre cheirosinha. Bicicleta não tem que encher o tanque. Tem uns churrascos de domingo na praia onde eu conheço pessoas de toda parte do mundo a cada edição, o que me permite viajar sem sair daqui. Não pago para entrar na balada local. Não tenho nenhum problema com Miojo, pelo contrário, adoro! Aprendi a fazer as unhas. Achei várias moedas de um real. Sério. Várias. Pelo menos uma por bolso/bolsa. O galão de água custa 6 reais (as moedas serão usadas pra isso, acho). E no momento não tenho cartão de crédito (perdi e os correios não entregam porque estão em greve), não tenho carteira de identidade, não tenho carteira de motorista e não terei décimo terceiro. Tenho rugas. Enfim, ser pobre aqui é fino demais e para construir algo novo é preciso destruir o antigo (adorei essa, vou usar mais). Ganhei mais uma hora e meia por dia para escrever porque acabou Cordel Encatado. Tô apostando todas as minhas fichas nesse último ítem.
Encontrei um quadrinho na Folha hoje que pode falar mais por mim:

Thursday, August 25, 2011

Meio dia em Paris

As duas vezes anteriores que vim para Paris, vim querendo amar. Vim querendo me fantasiar de parisiense, colocar uma baguete debaixo do suvaco, usar chapéu, renda, echarpe, fazer bico, falar merci. Não amei Paris. Desta vez, vim visitar uma amiga. Desenganada da cidade. Vim como se estivesse indo para Boracéia. E não é que estou amando. Andei de bike o dia inteiro, conheci um bairro incrível (Canal St Martin), tomei champa, vinho, comprei queijos, mas não quis ser daqui. Só observei. E digo que uma das melhores coisas do mundo é observar as pessoas em Paris. As pessoas milimetricamente amassadas. Os cabelos exaustivamente desgrenhados. Os petit pois, as roupas da vovó, os perfumes, os adereços, as poses. Sim, aqui você é reparado. E sai para isso. Não precisa ser rico. Não precisa ser caro. Precisa ser único. Ou tem vontade de ser único. Aqui todo mundo anda pisando em ovos. Vai comprar pão de pijama francês. Voltando pra "casa", num por do sol incrível, numa bike de 1,70 Euros por dia, sem ter a obrigação nenhuma de imitar um parisiense, de gostar de Paris, me senti abraçada. Viva la revolucion e a mudança de idéia. Pelo menos durante esse meio dia em Paris.

Thursday, August 18, 2011

Poesia eletrônica


Fefe, comentei com a minha mãe que se sou engraçada é porque você me inspira. Foi muito legal (Paraty) mas deu vontade de conversar mais. Bj

Sempre dá vontade de mais. Isso que é bom.


Eu e quase eu mesma: Fabat, minha eterna amiga.

Onde?

Não está em Paraty. Não está em São Paulo. Não está no presente. Duvido que esteja no futuro. No meu passado tão pouco. Não está em viagens. Não está nas pessoas que eu gostaria. Não está em mim quando as pessoas gostariam que estivesse. Não está no bar. Não está na balada. Não está entre os amigos. Muito menos entre os desconhecidos. E como se conhece quem tem? E como se conhece? Dizem que ele existe. Na minha cabeça ele é perfeito. Mas na prática, nunca vi. Ou ele é exagerado demais. Ou é ilusão. Às vezes penso em desistir. Hoje mesmo estou assim. Me sentindo acreditar numa lenda. Num tesouro depois do arco-íris. Talvez eu não encontre nunca. Talvez eu só o encontre em pequenos momentos. Pensando bem, juntando todos os pequenos eu já tenho quase que uma vida cheia dele. Sei lá, talvez eu seja a última.

Festival do Choro e do Samba.

Descobri que o samba e, principalmente choro, são gêneros muito singelos para a praça pirata. Os artistas que se apresentaram, não conseguiram arrebatar o grande público, me incluindo nesta. Vai ver é porque os artistas que se apresentaram como convidados da minha maison neste fim de semana (Tchê e Vera), deram um show muito maior de humor. Troquei as cólicas renais pelas abdominais de tanto rir. Chorinhos foram aqueles do ápice da gargalhada. O Luis Melodia foi ótimo, mas curto. O Paulinho é gentleman, puro, intimista e delicado demais para um domingo à noite na praça. E choro e samba, na verdade, está a minha vida por aqui. Fortes emoções. Um dia eu sambo, no outro eu choro. Assim que é bom.

Tuesday, August 09, 2011

Coisas

• Passou a noite inteira na pista de dança dizendo coisas indizíveis para alguém que tem orgulho. E me dando beijos na testa por respeito. Chorei.

• Tenho um bonequinho de íman bem vagaba que eu comprei numa das cachaçarias daqui. Em um braço de corda ele tem um ímam escrito LEITE. Se você tenta colocar o leite na boca do boneco os ímans se repelem e fazem o boneco virar a cabeça. Em outro braço de corda tem um íman escrito Pinga. Se você coloca na boca do boneco os ímans se grudam imediatamente.
Vou escrever COLÁGENO embaixo da pinga. E VÉIO embaixo do leite. Impressionante a atração.

• Sou igual maré. Maré cheia. Maré baixa.

• 9 dias, 19 horas e 40 minutos sem fumar.

• Nada detem os mosquitos e o portão da Piccola.

• Lendo um livro (tipo best seller) em italiano. Quinto capítulo. Capiscando tudo.

Thursday, August 04, 2011

Sintomas

Acho que desta vez é definitivo. Começando por esta frase e me extendendo em todos os outros sentidos, estou terminando (ou tentando. E sofrendo) com um dos grande amores da minha vida, o Tabaco. E, pensando, é igual ou pior do que treminar um namoro, um casamento. Penso nele o dia inteiro. Penso que ele poderia estar ao meu lado naquele almoço, naquela noite, naquelas frases escritas. Por onde ando me lembro dele. Por onde paro, mais ainda. Ele me acalmava, me consolava, dividia alegrias. A velha história do Don't Drink and Dial é idêntica. Don't Drink and Smoke. É só dar um golinho que eu quero ligar pro Tabaco, mandar uma mensagem, dizer que eu tô com saudade, que está difícil sem ele. Que eu ando tendo pesadelos. Tenho sono à tarde e insônia à noite. Que, às vezes, fico até desanimada da vida. O que ninguém entende, só quem ama como eu. Eu sei que muitos falavam mal dele, que ele não era para mim, que não combinava comigo, com a yoga. Mas eu insistia em arranjar desculpas para tê-lo ao meu lado, mesmo sabendo que ele só me fazia mal. Amor cachorro, bandido, que raiva, que tesão. Vai ser diƒeicil frequentar os mesmos lugares, escrever as mesmas coisas, pensar. É impensável pensar sem ele.
Olha, não vou sentir falta do seu cheiro, do seu gosto, vagabundo! Mas vou sentir sua falta. E quer saber, como todos os meus ex-amores, acho que vou continuar te amando. Você vai continuar mexendo comigo toda vez que eu te encontrar. Uma hora ou outra vou ter uma recaída, mas depois espero entender mais ainda as razões pelas quais eu te deixei. E assim poderia escrever um livro sobre o meu término com o Tabaco, aquele filho da puta. E, juro, para mim é o mesmo sentimento de terminar um relacionamento. Os mesmos sintomas. A mesma impotência. A mesma dependência. Os mesmos efeitos colaterais. O que me faz chegar à várias conclusões:
• o amor é um vício filho da puta.
• se são os mesmos sintomas sei que uma hora passa.
• se a gente só esquece um amor com outro, espero que o meu próximo seja um não fumante e não um prato de lasanha com brigadeiro de sobremesa.
• dias bonitos são mais fáceis para quem perdeu um amor.

Wednesday, August 03, 2011

Desconcerto

Mesmo com toda yoga, com todo ar puro, com toda a risada, com os amigos, com vinhos safados.
Mesmo com toda dança, toda criança, toda a felicidade do mundo, mais que a do Drummond.
Mesmo com todas as 8 horas de sono, com todo o barulho da cachoeira. E o banho. Gelado e quente.
Mesmo com amigos.
Mesmo comigo.
Mesmo assim.

Amor bandido

Saí para andar de bike, fui até o Jabaquara, andei a pria inteira, a via para a bike ficou toda estourada, os quisoques acabaram, o mangue chegou e eu continuava. Feliz por ser o único ser naquelas bandas. Vi um cavalo, quis andar nele, naquela praia deserta. O tempo estava fechado, friozinho. O que ajudava a convidar todas as pessoas a não irem para a praia e deixá-la só para mim. Cheguei lá no fim do mundo. Onde não tinha mais estrada, não tinha mais praia, não tinha mais nem tempo ruim. Mas tinha um casal de amantes dentro do carro seminus. Que azar hein, amigos. Ninguém ia imaginar que uma amante de dias cinzentos iria passar por ali. Duas da tarde, naquela lonjura, dentro de um carro. Eles só poderiam estar fazendo coisa errada.
Por isso, anotei a placa e tirei algumas fotos. E se voces, safadinhos da sessão da tarde, estiverem lendo esse post, exijo o pagamento de uma pequena mensalidade em troca do meu silêncio. Nada muito abusivo. Só o bastante para eu poder continuar com essa vidinha mansa. Caso contrário a jurupoca vai piar com as fotinhos aqui. Ficaram ótimas! Muito sensuais.
Assim passo os meus dias, viajando em maneiras absurdas de continuar aqui para sempre.

Pequena demais

São Paulo tem eventos que acontecem ao mesmo tempo. A Fórmula 1 calha de ser no mesmo fim de semana que um show de rock, que uma mostra de cinema. Mas São Paulo tem milhares de quarteirões e pessoas idem para ocupá-los. Aqui, tem muito mais evento por pedra quadrada do que em São Paulo. Daqui a pouco não vai ter mais fim de semana "livre". E eu que quase não gosto, me apaixono mais pela cidade a cada um deles. Nesse fim de semana tiveram dois: Festival Internacional de Artes Cênicas (para comemorar os 40 anos do teatro de bonecos) e o Contemporanea Art Paraty - festival Internacional de Artes Visuais. A cidade estava linda. Enfeitada, cheia de instalações, obras de arte, teatros. À noite teve vj na praça com um show de projeções na parede da igreja da Matriz. Próximas atarções: festival do samba e choro (com Paulinho da Viola e Luis Melodia), festival da Cachaça. Sair daqui pra quê? Só para fugir do encontro dos redatores publicitários que, graças a deus, acontecerá em minha feliz ausência.

Tuesday, July 26, 2011

Dom Quixote

Queria dizer que não sou dada à teatros de rua, essas coisas mambembes. Acho sempre meio chato e termino me perguntando: se é essa merda porque eu não faço a minha?
Mas estava andando durante a Flip e vi um Dom Quixote na janela. Várias noivas Dulcinéias estavam embaixo. Ele disse que ia descer para falar com elas. Fiquei esperado para terminar o teatro ruim de rua. Quando ele desceu elas tinham ido embora. Todas.

Sou lerda

Pra ler e para escrever. As duas coisas me tomam muito tempo na vida. O tempo mais lindo e claro e hoje estou cafona que eu já vi.

Ode

Se eu tivesse que escolher uma cidade, busca-la na imaginação ela seria assim:
Uma cidade bucólica, com chão de pedras, colorida. Mais colorida ainda quando o céu está azul. Mas quando ele está cinzento, as cores aguentam firmes, o mar e os barcos coloridos ainda estão lá.
Haveriam de ter pescadores, homens do mar, como nos livros do Jorge Amado. Pero, modernos, claro. Tudo se moderniza. Mas alguma calma haveria de restar de tudo isso. Só que tinha que ter montanha também. Afinal, passei trinta anos da minha vida amando montanhas, mato, terra, sem mar. Cachoeiras. Que serviam pra curar ressacas ou impressionar gentes de fora. Hoje finalmente me impressionam. Eu teria que morar no alto, nessa cidade, como princesa que nunca fui. Fazer bolo, escrever em máquina de escrever diferente que agora não usa liquid paper. Se eu tivesse que escolher uma cidade, ela tinha que ter gente todos os dias, nem que eu não quisesse vê-las. E na minha casa tinha que ter vista. Gosto de ter vista. Ela, a cidade, seria feita de quadrados gigantes, com portas pequenas. Você entra e nunca sabe onde pode parar. Ela teria personagens em cada ponta de cada quadrado. Ninguém que quisesse explorar a tal cidade. Mas que quisesse abusar da própria personalidade para se tornar proprietário dela, a cidade. Se eu quisesse escolher uma cidade, seria por minha própria e capricorniana escolha, não por hereditariedade. Mas a vida é voltar para mim, porque voltei para onde eu nasci, na Vila Madalena e agora estou onde o meu pai se divertia quando nem era casado. Se eu tivesse que moldar uma cidade. Moldaria em festas e eventos. Imaginaria de tudo para acontecer lá. Tudo que eu gostasse para não sentir falta do gas carbônico de São Paulo: uma festa de literatura, outra de jazz, de gastronomia, de pinga, de teatrinho de bonecos, de choro e de samba, de fotografia, de cinema, de religião (mesmo sendo pagã). Colocaria gente do mundo inteiro na cidade. Porque eu amo o mundo e ficaria mais perto dele assim. Reformaria os sinos da igreja da Matriz para que a cada hora, a cada badalada, eu soubesse que estaria na cidade ideal. Viveria a vida equilibrada, mesmo andando torta entre as pedras, de janela em janela. De cor em cor. Cumprimentaria com um sorriso todos. E com um orgulho também. Os da balada, os do dia, os que varrem, os que são varridos. Não entraria em confusões de província. Porque não seria uma província, seria um reino. E receberia todos em meu palácio, como se fosse imenso. Tão imenso como a minha satisfação.
Se eu fosse escolher uma cidade, não teria espinhas, a maior indicação de que algo não anda bem no corpo de uma mulher. Ou de uma mulher como eu. Seria bronzeada, andaria em duas. Rodas ou pernas. E só. Iria inventar bolos para fazer jus (ou juz?nunca escrevi procurei no google e não encontrei a resposta) ao que eu esperava. Ficaria triste cada vez que o sol se pusesse e feliz a cada manhã igualmente, sem culpa ou tristeza. Não me importaria de estar em tão nobre companhia minha durante tanto tempo consecutivo, sem fuga. Eu sempre fujo de conversas longas. Comigo e com os outros. Seria a Alice, o Dom Quixote, sozinha, buscando os meus sonhos sem entender direito porque eu estou sozinha, mas feliz com isso porque alguém me atrapalharia nesse momento tão nobre de descoberta da minha cidade. E, estando na minha cidade, receberia meus melhores amigos, com todo amor. E aí sim, descobriria quem eles são de verdade. Passaria dias incríveis e confidentes com cada um deles. E eles iam deixar na minha geladeira um restinho de toda essa deglutição amigável, pra eu ficar comendo durante a semana. Porque no dia seguinte até a amizade fica curtida e mais gostosa. Se eu tivesse que escolher uma cidade, queria que alguém escolhesse uns números da sorte pra mim. Da megasena, se possível. Para eu poder continuar aqui. Em casa, recebendo, no forró, na bike, no Dinho. E principalmente no meu palácio.Escreveria feliz sobre ele, em frente à um lago de carpas, como estou fazendo agora. Se eu tivesse que escolher uma felicidade, escolheria essa.

Coração de pedra

Ando preocupada comigo. Minhas paixões sempre duraram anos. A primeira durou uns 12. E diga-se de passagem, mal o beijei. E nunca cheguei aos finalmentes. A segunda uns 10. Cinco juntos e cinco pra esquecer. Depois um ano. Depois uns 6 (complicado, muito complicado esse). Agora ando me apaixonando demais. Por tempo de menos. Só espero que a intensidade da paixão não mude. Se existe uma coisa que eu amo na vida é amar profundamente. Por anos, um mês ou um minuto. Espero outra coisa também. Continuar amando todos, de outra maneira. Foi por isso que me senti meio pedra ao receber uma carta de um certo ser do sertão. Me pedindo pra voltar. O amor não volta. Mas ele continua seu caminho sendo outro, meu rei.

Cordel, cordel, cordel

Nada como o Chico Science na trilha do Cordel Encantado.
Hoje eu fiquei com um galo na testa tentando entrar pela tela em Brogodó. Quero ser princesa de Seráfia. Jesuíno me ligou dizendo que vai deixar o cangaço pra me ver amanhã. Farei tranças como as de Antônia para esperá-lo. Chega do delegado peruquento. Quero galãs de mentira. De novo estou sonhando. De novo estou livre em Paraty, o meu sertão. Assitir ao Cordel em sp não tinha graça. A vinheta lembrava o meu terraço daqui. O intervalinho que eu saia para tomar um ar. Ou uma cerveja, se for quinta.

Crianças


Tudo começou em São Paulo, com a risada do meu sobrinho. Os dois deitados no chão, gargalhando. Acho que eu tenho medo de crianças. Ou tinha. Ou tinha mesmo era medo delas não gostarem de mim. Mas essa gargalhada com ele foi tão pura, tão gostosa, tão verdadeira, que talvez tenha me libertado.
Depois veio o nascimento do Arthur, filho da Mylla. Me emocionei muito na maternidade porque acompanhei e escrevi a sua gravidez para um trabalho. Ela me disse que sonhou que eu estava grávida.
Depois vim pra Paraty e passei quase uma semana com os filhos da Dani. A Maria Clara e o João. Eles me olhavam com medo. E eu também para os dois. Um dia estávamos na praia e a Dani pegou minha bike para ir buscar o carro pedindo pra eu olhar os dois. Disse que sim, claro. Mas por dentro falava: não faça isso, eu não sei cuidar de crianças. A Maria Clara brincava com um novo amiguinho na areia. O João com um pedaço de pau no rasinho. E eu tentava brincar com o meu livro. Mas as letras se embananavam. Lia uma linha e olhava os dois. Esquecia o que eu tinha lido e lia tudo de novo. E olhava e lia. Foi então que o João tinha ido atrás de umas crianças. Agora vou ter que agir. Que medo. Quando eu já estava indo para o mar ele tinha voltado ao seu posto, mas já que eu estava lá, resolvi "brincar" com ele. João! Eu chamava. E ele fugia. João! Ele fugia mais ainda. Parei. Ele parou.
Pensa, Fernanda, pensa. Comecei a brincar com a água, sem chamar a sua atenção. Ele começou a me imitar. E foi chegando perto. Os dois, eu e ele, cachorros assustados. Quando ele achou que estava perto demais, foi atrás da irmã e do amiguinho. E eu atrás, a amiguinha que ninguém dava bola. Pensa, Fernanda, carai. Eu era mais transparente que a água pra eles. João! Maria Clara! Nada. Dá a mão! Que mão? Nada. Olhei pro chão desesperada, querendo amigos. Vi uma conchinha. Peguei, tava quebrada. Peguei outra, quebrada. Mais uma, feia. Nem com conchinha, com presentinhos eu ia conquistá-los. Mas só tem conchinha feia nessa prraaaaaa...Eles me olharam. E imediatamente sugeri, quero ver quem acha uma conchinha bonita pra mim. 6 olhos brilhando, três cabeças e 6 mãozinhas dentro da água procurando conchinhas. Meus olhões não acreditavam. minhas mãos cheias de conchinhas lindas! Meu corpo cheio de atenção, rodeado de crianças. Eu comandava e me rendia às gargalhadas. As mesmas sinceras do meu sobrinho. E corria com eles de um lado para o outro. E fazia barulho. E a praia inteira lounge olhando. E eu me vendo deitada, lendo e reclamando das crianças como uma rabugenta. A outra eu. Credo.
A Dani chegou e eu estava contando conchinhas na mesa com o João. Não sei quanto tempo ela ficou fora. Meia hora, uma hora. Tempo não se mede por hora, mas por intensidade. Eu sei que desde esse episódio, ganhei novos amiguinhos. Sorrisos sinceros. Lutei, ensinei a Maria Clara a desfilar. Ganhei beijos, abraços e gargalhadas até eles irem embora. Fui no Dinho's duas vezes, mas sai cedo pra poder brincar com meus amiguinhos. Era mais divertido. Não tenho mais medo de criança. Até porque todo mundo diz que eu sou uma criança gigante, com rugas e celulite.
Esta noite sonhei que eu estava grávida. E fiquei feliz. Não sei se terei filhos ou não. Sinceramente isso não me incomoda. Assim como não me incomodam amigos com filhos. Não tenho mais medo. Nem delas, nem de tê-las, nem de sê-las.

Pesado

Mais de um mês sem rotina. Começou no festival de jazz, depois são paulo, feriado, flip, visitas em casa durante a semana, são paulo de novo, mais visitas em Paraty. Ontem voltei à rotação normal. O sangue está voltando a correr no meus vinhos. Meus dedinhos voltaram a usar teclas ao invés de tocar em taças. Faz dois dias que eu não falo com ninguém pessoalmente. O céu está azul, o que me dá uma vontade de trabalhar no sol. O fim de tarde, só para resumir, está tão colorido que tingiu as paredes brancas das casinhas que eu enxergo daqui, de rosa. Voltei a respirar normalmente, a varrer, lavar a louça e pensar. Só agora, andando para jogar o lixo no portão eu começo a processar todo esse mês intenso. As conversas, as mesas, os shows, as visitas, os laços, os nós. Quando um acontecimento atropela o outro a gente quase vai parar na UTI. Eu já estava em fase terminal. É bom voltar à rotina. E estar aqui sem estar.

Flip - Flipalomas 25

Depois do David Burn, o céu estava lindo, o mar contativo. Deixei os pelados de Zé Celso fecharem a Flip enquanto semi-nua com vários amigos queridos, peguei um barquito e fomos fazer um almoço infindável no restaurante do Hiltinho, na ilha do algodão.
A Flip desse ano me pareceu mais vazia que a última, ainda bem. A organização estava impecável. As palestras mais variadas e infelizmente menos literárias. Ver as tendas sendo desmontadas é sempre triste.
Mas a melhor festa da Flip foi no Dinho's, domingo à noite. Quando todo mundo já tinha ido embora. Espero que o ano que vem eu ainda esteja aqui num domingo à noite.

Flip - Flipalomas 24

David Burn


Também acho que tem muito carro na rua. Também acho que a gente observa mais a cidade e convive mais com pessoas andando de bike ou à pé. Também acho que a vida em duas rodas é uma delícia. Mas preferiria que ele cantasse uma música do Talking Heads

Flip - Flipalomas 23

Mesa 15

James Ellroy

"Se eu fosse um músico, seria Beethoven. Se eu fosse um líder religioso, seria Deus."

Pediu aplausos. Todo mundo deu.

Flip - Flipalomas 23

Mesa 15

James Ellroy

"Se eu fosse um músico, seria Beethoven. Se eu fosse um líder religioso, seria Deus."

Pediu aplausos. Todo mundo deu.

Flip - Flipalomas 23

Mesa 15

James Ellroy

"Se eu fosse um músico, seria Beethoven. Se eu fosse um líder religioso, seria Deus."

Pediu aplausos. Todo mundo deu.

Monday, July 25, 2011

flip - Flipalomas 22

Mesa 14

João Ubaldo Ribeiro.

Como diria uma amiga, só sentar para escutar um sotaque baiano já é um alento. Se a forma já acaricia, o conteúdo então. João Ubaldo é um show men. Sabe falar, sabe prender a atenção, sabe ter humor, dendê, acarajé, vatapá, santos, orixás e toda baianidade. Escutá-lo é passar pelo bambuzal do aeroporto de Salvador. Ele, bem à vontade, sabendo que sabe conquistar, contou histórias como a da senhora que disse que a Casa dos Budas Ditosos tinha sido baseada na vida dela. Que ele, Ubaldo, mancomunado com o Roberto Marinho, tinha espionado e publicado a vida dela.
Aos risos da platéia disse que o cheque é um grande gerador de inspiração. Contou sobre o Grande Ubaldo e o Pequeno Ubaldo (um canalha deste tamanho que vive me perseguindo), sobre Pepe, seu anjo da guarda, figura conhecida lá em casa. Disse que não conseguia mandar na maioria dos seus personagens. Deixou todo mundo feliz, balançando numa rede imaginária, debaixo de um coqueiro. E depois alguns cairam na areia de rir quando ele disse que perguntam pra ele: mas como você descreve tão bem aquela cena de homosexualismo? Ele disse que deu pra responder: treinei com os amigos.
Contando assim, sem sotaque, a graça se perde. Deixe de preguiça e entre num youtube pra entender do que eu falo. Achou que eu fui grossa? Como diria o próprio: longos anos de afeto nos unem para que eu possa te dar uma resposta apropriada.

Flip - Flipalomas 21

Mesa 12

Troquei por um solzinho, pé na areia, coca zero com gelo e essas coisas mundanas.

Flip - Flipalomas 20

Mesa 11 - Joe Sacco

Sensacional! Os desenhos, o jornalismo de quadrinho, sua postura, os ângulos impossíveis de se ter numa foto. E ainda foi sensacional com a minha sister Carol na hora do autógrafo. conversou com a sua fã, fez um desenho pra ela e tudo. Não me arrependi se estar la, mesmo sendo uma caricatura de mim mesma, com os olhos de ressaca, como que saída da faixa de gaza. Um amigo nem me reconheceu. A Flip numa manhã de sábado é bem complicada. É quase uma guerra.

Flip - Flipalomas 19

Mesa 9

Claude Lanzmann


Entrei na tenda para ver o homem que dormiu com a Simone de Beauvoir. Depois de ouvir tanta grosseria, empáfia, falta de educação, tirei o fone da tradução e dormi com ele também. Queria ter roncado. Só acordei no final da mesa. Com a tenda quase vazia porque ninguém merece. Muito menos ele.

flip - Flipalomas 18

Só pra dizer que amo os sinos dessa igreja tocando no meio da confusão flipense. Combina.

Flip - Flipalomas 17

Mesa 8

Inácio de Loyola Brandão e Contardo Caligaris.


Este foi o dia das lágrimas. De novo chorei. Escutar o Inácio de Loyola falar é sentar na calçada de uma cidade de interior num fim de tarde tomando cerveja em copo americano e comendo salaminho, vendo as primeiras estrelas pipocarem. Mas depois eu volto pra ele. O Contardo falou uma coisa que me fez ficar pensando e repetindo o pensamento como papagaio. Achei genial.
Tudo começou com um papo de que perguntavam para ele se os relacionamentos que começavam via internet não eram falsos porque as pessoas podiam mentir a vontade. Ele respondeu com uma pergunta: e fora da internet, as pessoas não mentem? Claro que sim. Ele disse que relacionamentos eram bailes de máscaras. Dois mascarados se encontram e jogam entre si. Só de vez em quando a máscara cai e aí sim esse relacionamento é sincero, mas isso é raro. A invenção, a ficção faz parte do jogo. É o que você gostaria de ser. E deu um exemplo: se um paciente chegasse em seu consultório e contassem apenas coisas inventadas sobre a sua vida, contasse uma história ficcional para ele quase que certamente ele iria receber alta antes de quem vai e conta (ou acha que está contando) sobre a sua verdadeira vida. Isso porque, na maioria das vezes, a memória mente para a gente. E quando estamos criando, somos mais nós, sem vícios, preconceitos e crenças. Achei incrível.
Voltando ao contador de histórias deliciosas, elas são tão incríveis que parecem ficção. Ou são, e sua memória o traiu dizendo que são realidade. Fiquei feliz em ter abdicado do meu ingresso para a tenda dos autores para ficar ouvindo o Loyola com os meus amigos, tomando uma cervejinha, porque aquele era o ambiente para uma conversa tão gostosa. Como quando ele disse que às vezes é difícil acreditam no nome dos personagens. E que se você precisar encontrar um nome de velho para um, que vá ao cemitério. E o papo terminou com uma história linda. Ele disse que escreveu o seu livro como um pedido de desculpas para o seu avô. Isso porque quando ele era pequeno, achou na casa do avô uma caixa embaixo de algum móvel e, curioso, resolveu abrir. A caixa estava cheia de bolas de gudes. De tempos em tempos ele ia lá e roubava algumas bolas de gude que, criança, perdia por aí. Até que todas as bolinhas se perderam. Um dia ele volta para a casa do avô e encontra a avó muito preocupada porque o avô estava triste demais. Alguém tinha pego todas as bolinhas da caixa e elas eram muito importantes para ele. Tinham um valor inestimável. Inácio ficou quieto.
A história das bolas de gude era a seguinte: certo dia o avô viu uma foto de um carrossel lindo, todo colorido. Como não existiam carrosseis no inteiror ele sonhou em construir um. Fez então um carrossel bem mambembe, tentou reproduzir os cavalos e, para fazer os olhos deles, comprou bolinhas de gude. O carrossel foi um sucesso e fez muitas crianças felizes. Ele rodava o interior com crianças rodando nele, escolhendo os cavalos pelos olhos. Aos olhos das crianças era um carrossel lindo.
Um dia, o carrossel pegou fogo. Não sobrou nada. Só as bolinhas/olhos entre as cinzas. O seu avô então juntou todas que encontrou e guardou na tal caixa, de recordação.
Guardei essa história na minha caixa. Brindei chorando com a Pati ao meu lado. Como é bom ouvir histórias de quem sabe contá-las. E viva Araraquara.

Flip - Flipalomas 16

Mesa 7

Emmanuel Carrère e Péter Esterhazy


Não estava ligando o nome à pessoa. Mas quando descobri num dos resumos que o Emmanuel Carrére tinha escrito O Bigode fiquei desesperada para ver a mesa. Foi um dos livros que eu mais gostei de ler nos últimos tempos. A história de um homem que raspa o bigode para fazer uma surpresa para a mulher mas quem acaba surpreso é ele pois ela e todo mundo afirmam que ele nunca usou bigode. Ainda tocada com meu muso valter hugo mãe decidi comer com os amigos antes dessa mesa. Tínhamos uma hora e pouco. Pedimos uma massa. E eu desesperada para ver a palestra, desesperada para ver o prato chegando, desesperada de fome. Como o bigode, era tudo ilusão. A comida não chegava. Todas as outras mesas eram servidas, menos a nossa. Queria sair correndo, mas não pude. Não tive prazer na mesa. Nem na minha, nem na 7. Cheguei no final, a tempo de escutar o autor falando sobre o meu livro querido. Mas, depois lendo, perdi um momento incrível onde o Peter Esterhazy contou que quando acabou o romance, no dia 12 de junho de 2000, havia sido criado um Instituto de Memória húngara, que envolvia a abertura de arquivos da ditadura comunista. Como era um autor já consagrado, pediu ao instituto que lhe enviasse quaisquer documentos que estivessem envolvidos com ele. Achou estranho, no entanto, que, após a pesquisa, o próprio diretor do instituto ligara e pedira para que o escritor fosse até seu escritório. Lá, o diretor pediu para que Péter se sentasse e então lhe entregou alguns poucos documentos. Quando Péter os abriu, reconheceu de pronto a caligrafia singular de seu próprio pai. Fora o pai do escritor que o investigara e escrevera relatórios sobre sua vida para a ditadura húngara.
Enfim, a regra é clara: entre uma mesa e outra não cabe uma mesa de restaurante.

Flip - Flipalomas 15

Mesa 6

Pola Oloixarac e valter hugo mãe


A musa e o xodó, li numa manchete do dia seguinte.
Quando entrei na tenda dos autores (graças à deus e à sorte na primeira fila), sabia que Pola era a musa, muito se comentava sobre isso. E sabia pouco, muito pouco sobre valter hugo mãe. Tinha lido uma reportagem sobre o porque dele escrever tudo, inclusive seu nome, com letras minúsculas. E só.
Pola entrou e causou furor. Todos à minha volta comentavam: que linda! que mulher maravilhosa, que charme. Eu também. Linda de morrer. Linda, bem vestida, com postura.
valter hugo mãe não causou tanto furor na sua entrada. Quase quarenta, careca, meio barrigudo (segundo ele mesmo), óculos.
Pola pode até escrever bem, mas não me pergunte o que ela disse. Estava nervosa, vi quando o papel na sua mão tremia feito maria mole. Respondia as perguntas digressivamente. Mas continuava linda, simpática e com carisma.
Já se me perguntarem o que valter hugo mãe disse, talvez eu responda tudo, decorado, palavra por palavra. De tudo o que ele disse, nada eu jogaria fora da memória. Ele falava e seus cabelos iam crescendo, sua barriga ia criando gomos, seus olhos ficando azuis. Foi a mesa mais emocionante da Flip, na minha opinião. Se existe um modelo de escritor, alguém que eu gostaria de ser, seria ele. seria fernanda machado mãe, como ele. Mãe porque é a coisa mais incondicional que existe. E ele queria ter uma relação incondicional com o leitor. Queria escrever o que me falta, como ele. Queria que meu livro (se algum dia ele existir) não fosse autobiográfico na partida, mas se tornasse na chegada, como ele disse. Queria que escrever fosse o melhor tempo do meu ano, o melhor tempo do meu tempo, como para ele. Queria, como ele, ter dormido no quarto do Fernando Pessoa e ter pensado que poderiam aparecer milhares de fantasmas, já que ele, o Pessoa, era "desdobrado em não sei quantos". E depois dizer com toda a doçura que a cama era péssima. E arrancar risos e suspiros do público.
ENFIM, VALTER HUGO MÃE MERECE CAIXA ALTA. E como se não bastasse tudo o que ele disse, no final ainda leu uma carta sobre o porque ele gosta tanto do Brasil e dos brasileiros. Saí torcendo para estar sol para colocar óculos escuros. Ou chovendo, para a chuva dar uma disfarçada básica nas minhas lágrimas que continuaram a cair até depois que eu atravessei a ponte.
Para mim foi a xodó e o muso. lindo.


“Quando eu tinha uns 8 anos, veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.

Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam avidamente saber quem casava com quem na ‘Gabriela’.

A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.

A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.

As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, faziam vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.

Um dia a minha irmã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de midas que me transformava num menino de ouro.

Aos dezoito anos, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do ‘Tempo perdido’. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o ‘Tempo perdido’. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.

O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.

Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido, pois aqui estou, a FLIP fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso.”

valter hugo mãe, Paraty 2011

flip - Flipalomas 14

Mesa 5

Andrés Neuman e Michael Sledge

Para falar a verdade cheguei bem tarde nessa mesa porque fui recepcionar um amigo querido que ia ficar em casa. Mas fui muito com a cara do Andres Newman e até comprei o seu livro para me redimir. O Michael Sledge escreveu um livro sobre o relacionamento da urbanista brasileira Lota de Macedo Soares com a poetisa Elisabeth Bishop. Mais um estrangeiro que entra no mundo brasileiro para escrever. Que orgulho.
Frases da mesa, dita por Andrés:

"Há algo de vampiro no escritor. "

" É obrigação do escritor invadir a privacidade dos personagens. "


Disse também que sente uma profunda solidão ao terminar de escrever um romance.
Sinto o mesmo ao terminar de ler. Economizo páginas pra não terminar um livro que estou gostando. Sinto uma saudade imensa dos personagens que se misturam na minha vida por um tempo. Converso com eles. Penso no que eles fariam ou falariam em determinadas situações. E acabo agindo ou escrevendo como eles durante um tempo. Isso tudo pra mim é impagável.
Tenho até medo de criar um personagem e não querer deixá-lo. Sou muito apegada e ciumenta.

Monday, July 18, 2011

Flip - Flipalomas 13

Mesa 4

Luis Felipe Pondé e Miguel Nicolelis


Ô mesa, viu! O maior gasto de salivas em mesa de bar de todas as Flips. Horas e horas de discussões com amigos, conhecidos e desconhecidos. Argumentos e contra-argumentos. Vários "porque sim" sem razão do meu lado. Eu era o dom Quixote, lutando contra moinhos. Minha opinião não batia com a de ninguém. Talvez nem com a minha própria opinião racional. Mas eu sou assim. Mais sentimento do que razão. E gosto e sentimento não se discutem.
Começamos assim: estava louca para ver o Pondé. Um dia antes, cruzei com ele na ponte e não me contive, tive que dar os parabéns pelo capítulo "Jantares Inteligentes" do seu livro Contra Um Mundo Melhor. Ele sorriu, confiante.
Cheguei cedo na tenda dos autores para pegar um lugar lá na frente. Eles entram na arena, ops, palco.
Do meu lado esquerdo, o possível canditado ao Nobel Miguel Nicolelis, com sua postura neurocientista ereta. Do meu lado direito, Luis Felipe Pondé, largado na cadeira, com pinta e ar de favorito.
O primeiro a falar foi o doutor Nicolelis. Levantou-se da cadeira e começou a explanar sobre o exoesqueleto num power point. Colocou o som de um "brainstorm" (neurônios em atividade) ao som de óóós da plateia, fez piadas de salão no melhor estilo stand up comedy, não engasgou (obviamente porque era uma palestra decorada que, como ele mesmo disse sem falsa modéstia, já foi apresentada em diversas partes do mundo). Só engasgou num choro quando disse que na copa de 2014, uma criança usando o exoesqueleto daria um chute numa bola, um gol da ciência brasileira, ou algo que o valha. Tirando lágrimas das pessoas. E terminou seu power point com uma foto de Santos Dumont dizendo que é possível sonhar com o que parece impossível. Foi aplaudido quase que de pé. Eu fiquei bem sentadinha. Acho louvável, glorioso, super, hiper, impressionante seu trabalho. Mas detestei sua forma de apresentação. Já tinha lido sobre o exoesqueleto. O cara é um gênio, inegável. Mas nem por isso deixo de contestar a forma como ele se apresentou. No mínimo, um cara com toda essa genialidade deveria ter a sensibilidade de saber que estava numa feira de literatura. Onde existem mesas e não palestras. Onde se dialoga, se fala de literatura, onde se trocam idéias e opiniões na hora, sem ensaios, power points, piadas prontas. Foi isso que me irritou. Não o conteúdo que, repito, acho genial. Ele foi jogar bola de sapato social.
E acho que irritou o Pondé. Que perdeu a pose, que se perdeu. Que não soube o que falar. Que o atacou. Que só se defendeu. Que foi fraco, confuso. Que até hoje, dia 18 de julho, dá respostas tortas na Folha, na sua coluna, cutucando Nicolelis. Pondé se perdeu na sua própria vaidade. Não o julgo. Talvez fizesse o mesmo.
O fato é que, e aí é uma opinião totalmente pessoal, eu sou muito mais pessimista, menos piégas, mais ficcional e mais realista ao mesmo tempo. Não acredito em mudar o curso natural dos rios. Tenho medo de mudar a natureza humana. Não acredito em perfeições. Gosto do erro, das mazelas, do sofrimento, do natural. Tenho medo de misturar máquinas e homens. Do discurso pronto, do planejado. Acho lindo o acaso, a imperfeição, a falta de domínio, as diferenças, o improviso. Não acredito em religião. Nem na religião da ciência. Nem no milagre da ciência. Acho que devemos filosofar com a cabeça e não com máquinas. Tenho medo de robôs. Tenho medo de gente que vive com um celular na mão ligado á internet ao invés de conversar. Gosto das relações homem/homem e não homem/máquina. Gosto de ouvir uma conversa e não neorônios em tempestade. Tenho medo de algum dia uma máquina entrar no meu cérebro e acabar com o meu medo, com as minhas inseguranças, com as dúvidas. Ajudar crianças tetraplégicas a andar é lindo, incrível, emocionante, louvável. Merece realmente o Nobel. Mas transformar homens em ciborgs me dá muito, muito medo. Essa idéia da mente extrapolar os limites do corpo através de máquinas me apavora. Talvez essa nem seja a intenção de Nicolelis. Mas essa mesa me fez pensar em tudo isso. Talvez eu não tenha me explicado muito bem. Talvez um dia, essas maquininhas de ler pensamentos transcodifiquem melhor o que eu penso. Mas por enquanto quero continuar assim. Confusa e imperfeita. E humana.
No final, quem ganhou a luta mesmo foi a juíza. Palmas para a mediadora, a jornalista Laura Greenhalgh que soube conduzir com maestria esses gladiadores.

Flip - Flipalomas 12

Mesa 3

Caryl Phillips e Camila Shamsie

Queria ter sido a mediadora dessa mesa. O cara não teve trabalho nenhum. Os dois, fantásticos, costuraram uma conversa deliciosa sobre seus livros e o processo criativo.
Ela, que me desconcertava com uma camisa hipnotizante, é paquistanesa, mora em Londres e escreveu um livro que conta a trajetória de uma sobrevivente de Nagasaki. O nome do livro, 'Sombras Marcadas", tem a ver com as marcas deixadas nas peles dos sobreviventes da bomba. A personagem, que usava um quimono com estampas, ficou com pássaros pretos impressos nas costas. Impressionante. Impressionante também, e muito corajoso, ela ter escrito um livro sobre um país e uma língua diferente da sua. Mas como Caryl afirmou, é preciso haver uma certa arrogância para escrever. Aliteratura vem de um lugar lá dentro. É uma tentativa de entender o mundo. Para escrever é preciso ter esperança e presunção. É preciso embelezar a linguagem.
Fico imaginando que ele deve ter ido lá dentro mesmo, no fundo do poço do seu eu para escrever seu livro "A travessia do rio" que conta a história de um pai que vendeu seus filhos. Um pano de fundo para contar uma história sobre a história do Atlântico.
Depois os dois entraram num debate sobre porque, mesmo depois de 10 anos, ninguém ainda escreveu nada sobre os ataques de 11 de setembro. Porque, segundo Caryl, cada sociedade tem os escritores que merece e os EUA estão mais interessados em relatos sobre a vida de Shakira ou Brad Pitt. E completou dizendo que os autores americanos não tem mais uma autoridade moral sobre a sociedade.
Adorei os dois, escritores de verdade, profundos e passionais. Sérios e politizados.
Ela, se apaixonando pelos personagens e deixando-os ter vida própria. Contou um caso incrível de um casal que leu o seu livro e começou a discutir sobre o final. O marido dizia que o personagem X tinha um fim Y. A mulher dizia que ele tinha um fim Z. Sendo amiga de Kamila, a mulher ligou para confirmar o seu final com a própria. Kamila confirmou. O que aconteceu foi que o marido tinha lido o livro em italiano e o tradutor resolveu mudar o final. Ao invés de ficar brava, ela deixou pra lá, porque aquele era o final que ela realmente queria para o personagem e o tradutor resolveu isso para ela.
Ele, irônico, sarcástico e lindo. Um belo negro caribenho.
Ambos eram questionados por amigos escritores se eles ainda não tinham ido à Flip. Ambos agora estavam felizes em poder dizer que já foram. E eu muito mais feliz querendo que eles voltem sempre.

Flip - Flipalomas 12

Mesa 3

Caryl Phillips e Camila Shamsie

Queria ter sido a mediadora dessa mesa. O cara não teve trabalho nenhum. Os dois, fantásticos, costuraram uma conversa deliciosa sobre seus livros e o processo criativo.
Ela, que me desconcertava com uma camisa hipnotizante, é paquistanesa, mora em Londres e escreveu um livro que conta a trajetória de uma sobrevivente de Nagasaki. O nome do livro, 'Sombras Marcadas", tem a ver com as marcas deixadas nas peles dos sobreviventes da bomba. A personagem, que usava um quimono com estampas, ficou com pássaros pretos impressos nas costas. Impressionante. Impressionante também, e muito corajoso, ela ter escrito um livro sobre um país e uma língua diferente da sua. Mas como Caryl afirmou, é preciso haver uma certa arrogância para escrever. Aliteratura vem de um lugar lá dentro. É uma tentativa de entender o mundo. Para escrever é preciso ter esperança e presunção. É preciso embelezar a linguagem.
Fico imaginando que ele deve ter ido lá dentro mesmo, no fundo do poço do seu eu para escrever seu livro "A travessia do rio" que conta a história de um pai que vendeu seus filhos. Um pano de fundo para contar uma história sobre a história do Atlântico.
Depois os dois entraram num debate sobre porque, mesmo depois de 10 anos, ninguém ainda escreveu nada sobre os ataques de 11 de setembro. Porque, segundo Caryl, cada sociedade tem os escritores que merece e os EUA estão mais interessados em relatos sobre a vida de Shakira ou Brad Pitt. E completou dizendo que os autores americanos não tem mais uma autoridade moral sobre a sociedade.
Adorei os dois, escritores de verdade, profundos e passionais. Sérios e politizados.
Ela, se apaixonando pelos personagens e deixando-os ter vida própria. Contou um caso incrível de um casal que leu o seu livro e começou a discutir sobre o final. O marido dizia que o personagem X tinha um fim Y. A mulher dizia que ele tinha um fim Z. Sendo amiga de Kamila, a mulher ligou para confirmar o seu final com a própria. Kamila confirmou. O que aconteceu foi que o marido tinha lido o livro em italiano e o tradutor resolveu mudar o final. Ao invés de ficar brava, ela deixou pra lá, porque aquele era o final que ela realmente queria para o personagem e o tradutor resolveu isso para ela.
Ele, irônico, sarcástico e lindo. Um belo negro caribenho.
Ambos eram questionados por amigos escritores se eles ainda não tinham ido à Flip. Ambos agora estavam felizes em poder dizer que já foram. E eu muito mais feliz querendo que eles voltem sempre.

Saturday, July 16, 2011

Flip - Flipalomas 11

A moda é:

rachar mesa com desconhecidos no café da tenda dos autores.

Flip - Flipalomas 10

Mesa 2

Marcia Camargos e Gonzalo Aguiar

Mais uma mesa dessas e eu vou num centro espírita tentar um sexozinho virtual com o Oswald. Ela, academicamente, discorreu mais sobre como ele engoliu a vida num verdadeiro banquete antropofágico. Disse que na semana de 22, Oswald saiu do teatro munincipal e foi até a São Francisco convocar os estudantes para que eles vaiassem nas apresentações artisticas gerando assim mais polêmica e mais mídia. Oswald transformava o cotidiano em poesia, era o verdadeiro cozinheiro das almas desse mundo, introduziu o linguajar popular na literatura, escandalizava pelo próprio fato de existir. E ainda tomou champanhe no sapato de Isadora Duncan, uma dançarina que ele entrevistou. Não dá pra não gostar de uma pessoa que comia o mundo e tomava champa para acompanhar o banquete.

Ó uma dele com homenagem à minha nova terra:

Relicário

No Baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí



Já o argentino Gonzalo Aguiar deu uma aula sobre o Abapuru.
Devo dizer que tenho orgulho quando alguém de fora se dedica a pesquisar coisas nossas. Como o Benjamin Mozer que escreveu aquela bíblia sobre a Clarice. Isso já me faz ir com a cara do cara. E fui mais ainda quando o microfone dele (daqueles que ficama na cabeça) começou a falhar e trocaram por um microfone de mão. Ele disse: estou passando de Madonna à Frank Sinatra.
Enfim, simpatias à parte, para uma leiga como eu, foi bom descobrir toda a importancia do Abapuru para o movimento modernista. Foi bom saber que o manisfesto modernista foi escrito em volta dessa imagem que não era meramente ilustrativa, mas que representava muita coisa. Abapuru quer dizer homem que come, comedor de carne humana. Nesta tela de Tarsila, os pés são maiores que a cabeça. E isso não é apenas um estilo. É proposital. O pé representa a mobilidade, o andar, o descobrir caminhos novos. No manisfesto modernista, muitas partes citam os pés. Eles queriam inverter a hierarquia da cabeça. Afinal, onde começa o corpo? No pé, está a experiência. E principalmente as novas experiências. Na cabeça está a memória, fonte de costume.
Outra característica do Abapuru é que o homem representado está nu, o que remete ao índio. E o índio é celebrado pelos modernistas. O índio representa o homem sem culpa. Sem pecado nem redenção. A felicidade do índio está na terra, no agora.
Tupi, or not tupi. That's the question.

Eu "tupiaria" e viveria feliz, nua, no ano 475 após a deglutição do Bispo Sardinha (esse era o calendário inventado por eles), tomando um espumante de mandioca e recitando poemas para a lua.

Flip - Flipalomas 9

Eu sou uma pobre rasteirinha de intelectual descolada. Tô triste dentro de um armário sem poder assistir as mesas da Flip. Morro de saudade dos meus amiguinhos, a echarpe e o óculos de grau. Fui trocada pela bota, aquela vaca. Aquela girafa cheia de couro. Justo nesse ano, quando eu poderia ficar mais perto do mar e quem sabe até pisar na areia. Faz muito frio lá fora. Faz mais aqui dentro. Ando muito chateada com essa temperatura. Pior ainda, nem ando.

Flip - Flipalomas 8

A tenda dos autores é uma bola branca. Um pulmão branco que incha de gente e oxigena as cabeças. E murcha depois dos aplausos com senhoras, muitas senhoras, rejuvenescidas pelo prazer da mesa que assistiram. Cheias de vida e opiniões. É bonito de se ver.

Flip - Flipalomas 7

Mesa 1
Carol Ann Duffy
Paulo Henriques Brito


Adorei a Carol Ann Duffy. Tanto pela forma quanto pelo conteúdo do que ela escreve. Uma poetisa, que transporta lembranças de lendas e personagens tirados da infância e adolescencia para os tempos modernos. Sempre numa voz e num olhar feminino, ela conta, por exemplo, como a senhora Midas descobriu que seu marido começou a transformar tudo o que tocava em ouro. Transformou o milho que estava comendo, por exemplo, em dentes de ricos. Os dois acabaram se separando porque, afinal, quem consegue viver com um coração de ouro?
Em outro micropoema, a senhora Darwin conta que estava passeando pelo zoológico com seu esposo e disse algo como isso:
Querido, não sei, mas alguma coisa daquele chimpanzé ali me faz lembrar você.
E tinha também a fútil senhora Fausto, que até botou peitos e herdou tudo do marido que tinha tudo, menos umas alma para vender.
Tirando essa série de esposas de famosos, ela ainda recitou uma poesia em homenagem a mãe falecida que me emocionou muito. Adorei.
Paulo Henriques recitou uma poesia baseada numa frase de uma música do Jim Morrison. Muito bacana.

Outras formas de poesia. E meus olhos brilham com o desconhecido, com o novo. Saí querendo andar sobre as águas do rio ao invés de pegar a ponte.


Aqui o poema da Carol Ann Duff sobre Mrs Midas:

It was late September. I'd just poured a glass of wine, begun
to unwind, while the vegetables cooked. The kitchen
filled with the smell of itself, relaxed, its steamy breath
gently blanching the windows. So I opened one,
then with my fingers wiped the other's glass like a brow.
He was standing under the pear tree snapping a twig.

Now the garden was long and the visibility poor, the way
the dark of the ground seems to drink the light of the sky,
but that twig in his hand was gold. And then he plucked
a pear from a branch - we grew Fondante d'Automne -
and it sat in his palm like a light bulb. On.
I thought to myself, Is he putting fairy lights in the tree?

He came into the house. The doorknobs gleamed.
He drew the blinds. You know the mind; I thought of
the Field of the Cloth of Gold and of Miss Macready.
He sat in that chair like a king on a burnished throne.
The look on his face was strange, wild, vain. I said,
What in the name of God is going on? He started to laugh.

I served up the meal. For starters, corn on the cob.
Within seconds he was spitting out the teeth of the rich.
He toyed with his spoon, then mine, then with the knives, the forks.
He asked where was the wine. I poured with shaking hand,
a fragrent, bone-dry white from Italy, then watched
as he picked up the glass, goblet, golden chalice, drank.

It was then that I started to scream. He sank to his knees.
After we had both calmed down, I finished the wine
on my own, hearing him out. I made him sit
on the other side of the room and keep his hands to himself.
I locked the cat in the cellar. I moved the phone.
The toilet I didn't mind. I couldn't believe my ears:

how he'd had a wish. Look, we all have wishes; granted.
But who has wishes granted? Him. Do you know about gold?
It feeds no one; aurum, soft, untarnishable; slakes
no thirst. He tried to light a cigarette; I gazed, entranced,
as the blue flame played on its luteous stem. At least,
I said, you'll be able to give up smoking for good.

Seperate beds. In fact, I put a chair against my door,
near petrified. He was below, turning the spare room
into the tomb of Tutankhamun. You see, we were passionate then,
in those halcyon days; unwrapping each other, rapidly,
like presents, fast food. But now I feared his honeyed embrace,
the kiss that would turn my lips to a work of art.

And who, when it comes to the crunch, can live
with a heart of gold? That night, I dreamt I bore
his child, its perfect ore limbs, its little tongue
like a precious latch, its amber eyes
holding their pupils like flies. My dream-milk
burned in my breasts. I woke to the streaming sun.

So he had to move out. We'd a caravan
in the wilds, in a glade of its own. I drove him up
under cover of dark. He sat in the back.
And then I came home, the women who married the fool
who wished for gold. At first I visited, odd times,
parking the car a good way off, then walking.

You knew you were getting close. Golden trout
on the grass. One day, a hare hung from a larch,
a beautiful lemon mistake. And then his footprints,
glistening next to the river's path. He was thin,
delirious; hearing, he said, the music of Pan
from the woods. Listen. That was the last straw.

What gets me now is not the idiocy or greed
but lack of thought for me. Pure selfishness. I sold
the contents of the house and came down here.
I think of him in certain lights, dawn, late afternoon,
and once a bowl of apples stopped me dead. I miss most,
even now, his hands, his warm hands on my skin, his touch.

Friday, July 15, 2011

flip - Flipalomas 6

Show da Elza Soares

Ela sentada, enrolada numa echarpe branca de pele, não tão branca quanto o Michael Jackson mas tão arrebitada quanto ele, era uma Diva. Uma Diva sem idade. Divas não tem idade. Ecoava sua voz, seus berros roucos. Hipnotizou a plateia, fez todo mundo cantar o mantra do Pão de Açúcar com ela. Era a mulher de Garrincha, em plena forma.
O show terminou. Ela, em pé, era uma senhora centenária e foi praticamente carregada para fora do palco enqunto era ovacionada pela platéia. Me deu um aperto no coração. O palco é realmente mágico. Tem o poder de rejuvenescer e embelezar quem é devoto dele. Lembrei do Paulo Autran.

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Cerimônia de Abertura:
Antonio Candido e Jose Miguel Wisnik


Com o querido Antonio Candido, foi uma linda conversa. Ele foi amigo de Oswald, bem mais moço que ele, dizia do alto do palco e dos seus 92 anos.
Uma amizade que começou com uma briga, por causa de uma crítica dura feita por Antonio em 1943. Em 45, por se respeitarem intelectualmente, se encontraram numa livraria e Oswald propos serem amigos. Eles nunca mais se largaram. E a cada coisa que ele falava sobre o Oswald, eu tinha mais certeza de que ele não tinha morrido. Ele sou eu, querendo devorar o mundo, brigando e fazendo as pazes com os amigos, elogiando as obras dos brigados, sendo sarcástico, irônico, cômico, bon vivant. Se existisse uma reencarnação ao contrário onde, ao invés de evoluir, o ser humano fica menor, eu seria Oswald. O rascunho dele. A pedra dele.
Mas voltando à ele, conheceu Mário, que também era Andrade, embora sem parentesco. Amou Mário, foi amigo de Mário, brigou com Mário sem no entanto deixar de admirá-lo e tentar uma reconciliação para o resto da vida. fico imaginando sua angústia quando Mário morreu. Perdeu o amigo já perdido e a possibilidade de fazerem as pazes. Mas continuou sua vida, usando o humor como arma. Introduzindo o humor na literatura, na arte.
E depois desse papo delicioso, com a impressão de que o Oswald estava logo ali, ao lado do Antonio Cândido, entra Wisnik cheio de didatismo, num tom professoral e cansativo. Não consegui me concentrar. A certa altura desencanei para praticar o humor Oswaldiano com a minha amiga Fabat (minha Mária de Andrade) que acabara de chegar.

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Frases recorrentes no palco da tenda dos autores:

• Como eu estava conversando com X nos bastidores.
• Na festa de ontem, conversamos e X me falava..
• Desculpem, foi a cachaça de ontem.
• Não consegui mandar no meu personagem.
• Paraty é um paraíso.

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Antes, uma coisa:
Não deu para ser imediata nas informações. Também não era a intenção. Blogs, jornais, twiters e afins já se encarregavam de dar as notícias quase que em tempo real. Em tempo real eu apenas via as palestras e, no máximo, anotava no caderninho (aliás, achei ótimo proibirem lap tops no local), nos intervalos eu encontrava amigos para histórias além Flip fantásticas. Enfim, como em Paraty a vida anda em outra rotação, só comecei a postar estes posts póstumos agora. Com calma. E depois da ressaca monstro dessa canseira toda.


Nesta Flip temos a tenda do telão, a tenda dos autores e a tenda dos alcólatras. No novo complexo, a tenda do telão fica bem ao lado de um quiosque da praia de onde se pode assistir as mesas, sentado numa cadeira de boteco, molhando as palavras dos escribas com cerveja, vinho, cachaça. O silêncio e o respeito pelas mesas foram impressionante. Tirando um ou outro vendedor ambulante sem noção, os de fora, bobear, prestavam mais atenção que os de dentro, bebendo e tudo. Por causa de amigos desconvitados, deixei de ir algumas vezes na tenda dos autores para curtir o lado boemio da Flip. Mas tenho certeza que se a maioria deles, os autores, pudessem fariam o mesmo.
E outra, fiz a minha parte ao ajudar a comunidade local junto com a Flip. O tiozinho nunca faturou tanto.

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